Na
segunda-feira passada, 19 de janeiro, dediquei o primeiro texto desta coluna
para falar de um tempo passado que não mais existe fora da nossa mente, e aqueles
que a leram foram impactados pela lembrança de alguma experiência lá relatada
ou rememorada a partir dele. De fato, um
dos propósitos pelos quais, finalmente, decidi escrever estas conversas soltas é usar o poder
das palavras em determinar nossos pensamentos e mostrar que somos o que vivemos
no presente e, também, resultado do que experimentamos
no passado.
Revistando
arquivos digitais antigos me deparei com uma foto marcante que ilustra esta crônica,
capturada por um modelo de celular da
marca Sony, onde a câmera não era ainda embutida no corpo do aparelho, mas um acessório
que se acoplava. Senti ali que precisa partilhar e contar alguma coisa, porque
a saudade mora mesmo nesses detalhes.
Lembro
que era prática comum visitar minha antiga vizinhança, em Buriti, sempre que vinha de férias da capital São Luís,
para onde tinha ido estudar em 1996. Numa dessas vindas, pedi aos vizinhos para
nos reunirmos em frente à casa da minha
comadre Raimundinha e do então finado senhor Elizeu. Lá tenho um dos registros mais simbólicos sobre a passagem do tempo e da brevidade da
vida.
Foi difícil
precisar a data apenas pela memória, porém das 28 pessoas nela presentes, muitas
permanecem vivas, já algumas, quase uma dezena, não estão entre nós. A primeira
partida que identifiquei foi de dona Rita, a terceira mulher da foto,
conferindo da esquerda para direita, no ano de 2003, o que situa a foto num território
memorial de, aproximadamente, 23 anos atrás. Nessa imagem, a gente ver um tempo
condensado, uma experiência do partilhar e da convivência
cotidiana.
A gente sabe que não é fácil aceitar que alguém que amamos vire só lembrança de fotografia, não fomos preparados para lidar com a brevidade e a finitude da vida, e é por isso que algumas partidas não fazem sentido mesmo, só falta e as pessoas ficam na memória.
No entanto, recordar não é apenas aflorar um passado da memória, é saber que a verdadeira experiência é tudo aquilo que nos toca, nos acontece, e assim sendo também nos transforma. Foi justamente o que a foto revelou: as identidades do presente são construídas na relação com os outros, com a experiência e com o tempo.
ALIANDRO BORGES é professor, químico, farmacêutico, jornalista e editor do Blog Correio Buritiense. Integra a Academia Buritiense de Artes, Letras e Ciências (ABALC), da qual foi 1º presidente (2019-2023), ocupando a Cadeira nº 13, patroneada por José Pereira Borges. Atua na produção jornalística e na reflexão crítica sobre educação, cultura, meio ambiente e políticas públicas. Todas as segundas-feiras publica ensaios, crônicas e contos nesta coluna CONVERSAS SOLTAS, em que articula memória, cotidiano e análise social.

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