O tempo da
minha infância, em Buriti de Inácia Vaz, tinha um ritmo
diferente: portas abertas, cadeiras nas calçadas e rodas de
conversas. As pessoas se conheciam pelo nome, trocavam utensílios e a
rotina era partilhada. Ali, na rua do Cemitério, nos anos 90, eu
morava com minha bisavó Maria Rego, a Dindinha, já nonagenária. Cresci cercado
por vizinhança que ensinava mais pelo exemplo do que com palavras.
Dona Zezé,
ou “Mãezinha”, foi uma dessas vizinhas que me marcou. Vinda da zona rural,
construiu sua vida com muito trabalho, dignidade e dedicação à família. Não
tinha estudos formais, mas carregava uma sabedoria prática, forjada pela
experiência e na ética de quem viveu com responsabilidade, respeito e lealdade
aos próprios princípios, algo difícil nos tempos atuais. Na casa dela, eu
assisti novelas, como a Vamp, o São Paulo ganhar títulos internacionais e até
filmes que me assustaram por muito tempo, como Cemitério Maldito.
Mesmo ainda
criança, mas já com responsabilidades de adulto, eu me sentava nas conversas
entre minha bisavó, a vizinha Donza (esta considero uma mãe) e dona Zezé;
às vezes, algumas filhas suas também participavam. Desses diálogos, saíram
histórias, conselhos e lições de vida que guardei. Eu também era da
geração dos netos dela, com os quase participei de brincadeiras, construí
laços e memórias afetivas. Eu sou um fruto desse tempo, dessa vizinhança e
dessa amizade.
A foto que acompanha esta prosa, tirada em 9 de março de 2019, provavelmente, foi o último encontro na casa de dona Zezé. Depois disso, ela não mais retornou de Recife (PE), para onde tinha ido morar com as filhas. Na noite de quinta-feira, 15 de janeiro de 2026, recebi a notícia de sua morte, aos 94 anos. Já não se vive como antes em Buriti, mas seus ensinamentos permanecem. Escrevo com lágrimas por não estar presente na despedida do corpo, porém estou certo de que seu espírito volta à acolhida celestial, que sua alma se conectou à memória dos que a conheceram e sua história seguirá viva.
ALIANDRO BORGES é professor,
químico, farmacêutico, jornalista e editor do Blog Correio Buritiense. Integra
a Academia Buritiense de Artes, Letras e Ciências (ABALC), da qual foi 1º
presidente (2019-2023), ocupando a Cadeira nº 13, patroneada por José Pereira
Borges. Atua na produção jornalística e na reflexão crítica sobre educação,
cultura, meio ambiente e políticas públicas. Todas as segundas-feiras publica
ensaios, crônicas e contos nesta coluna CONVERSAS SOLTAS, em que
articula memória, cotidiano e análise social.


👏🏻👏🏻👏🏻
ResponderExcluirExlente
ResponderExcluirExcelente
ResponderExcluirAmei 👏👏
ResponderExcluirZezé vizinha e amiga que hoje está au lado do senhor
ResponderExcluirParabéns aliando vc tem uma memória em tanto
ResponderExcluirParabéns professor 👏👏👏 adorei ❤️❤️❤️
ResponderExcluirA sua história é igualzinho a minha, sou dessa época.
ResponderExcluir👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
Parabéns Aliandro por sua memória e por ter vivido nesse tempo maravilhoso,pena que nossa juventude não saiba o significado e o quanto importa pra nós seres daquela época.
ResponderExcluirA memória, a tradição deve ser resgatada pois a experiência pessoal será insubstituível pelo contato online, indireto, frio das redes sociais e essas ferramentas de comunicação.
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