Há alguns anos descobri que quando passamos por alguma tristeza ou uma decepção insiste em fazer morada, viajar funciona como um santo remédio. Depois da perda de um grande amor, em 2016, durante a “deprê” do abandono, começou minha fase turista. Primeiro conheci lugares no próprio Maranhão: Lagoa do Cassó, em Primeira Cruz, e os Lençóis Maranhenses, tanto em Barreirinhas como Santo Amaro. Depois me aventurei ao Sul do Brasil: Gramado, Canela, Santa Maria e outras cidades, além de países do Mercosul. Pronto: inaugurada minha fase viajante internacional.
Pois
bem. Na última viagem, a segunda à Europa, em 2023, vivi um episódio inusitado no retorno ao Brasil. Como não comprei
passagem aérea de Fortaleza para São Luís, precisei voltar de ônibus. Escolhi a Guanabara. Pequenas estranhezas
começaram antes mesmo do embarque. Eu, que considero meu celular como um sexto dedo
da mão, simplesmente o esqueci lá no balcão da agência. Só percebi na pressa de
passar pela catraca, quando precisei usá-lo. Voltei correndo e lá estava ele tranquilinho,
sem ser mexido, apesar de estar num espaço público. Fiquei realmente intrigado com aquilo, “seria algum
sinal”, mas Shakespeare dizia que “nada neste mundo é bom ou ruim, nosso
pensamento é que torna as coisas assim”, então sosseguei. Pois não é que o
pior estaria por vir?
Durante
o trajeto do ônibus, o motorista anunciou que teríamos de parar numa delegacia na
cidade seguinte, ainda no Ceará, para registrar a ocorrência de furto dentro do
ônibus: um celular e 50 reais de uma
passageira. Instantes depois, a vítima decide se levantar e ela mesma explicar
a situação: Tinham tirado o celular da filha dela e mais o dinheiro, e que este
ela dizia não fazer questão. Visivelmente chateada, ela disse que não gostaria
que esse transtorno acontecesse e que, caso a pessoa que furtara decidisse
devolver o celular ela evitaria o atraso na viagem do ônibus.
Eu
assistia Netflix na poltrona da janela. Levantei e sugeri que se abrissem as
bolsas para checagem. A vítima, porém, respondeu que não faria aquilo, que
conhecia seus direitos e, aliás, era advogada.
Insisti: “a minha está aqui, eu mesmo abro”. Em seguida, por receio de
mexerem em minha bolsa, mudei da janela para poltrona do corredor e voltei ao
filme.
O
ônibus tinha poucas passageiros. Três jovens zoadentos ocupavam a parte traseira;
à minha frente, uma criança e um idoso, em fileiras separadas; do lado oposto
ao meu, duas fileiras adiante, um rapaz sozinho, que aparentava uns 23 anos; e perto
da cabine do motorista estavam a vítima e a filha. Em determinado momento, a
mulher e sua filha decidiram mudar para poltrona que fica duas fileiras à frente da
minha.
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| Ônibus Guanabara - Foto/crédito: Divulgação. |
Cada
vez que alguém ia ao banheiro havia uma desconfiança. O idoso demorou muito
tempo e virou alvo de olhares. O jovem do outro lado me observava continuamente,
quase tentando me convencer do envolvimento
dos que eu já suspeitava mesmo, os do fundo. Fui ao banheiro, voltei e fiquei
vidrado no filme com as pernas cruzadas e corpo inclinado para janela.
Eis que aconteceu o inesperado. De repente,
vejo algo no assoalho da poltrona da janela que eu ocupava antes. Observei
atentamente e, pasmem, era o celular furtado. Do nada, simplesmente ali.
Não sei como foi parar lá, parecia coisa de
magia. Mas fiquei me questionando em silêncio: “E agora? Como vou explicar
isso? Ninguém vai acreditar em mim!”. Porém,
carrego um ensinamento bíblico de que devemos sempre falar a verdade com o próximo,
independente, do que os outros acharão, inclusive, provérbios 12:17 diz que “a
testemunha verdadeira declara a verdade, mas a falsa testemunha diz mentiras".
Ainda assustado, me levantei e fui acordar a vítima,
perguntando as características do celular dela e então informei que ele tinha
aparecido no chão ao meu lado. Disse a ela claramente que não ficaria refém do
furto de um celular e exigi que as filmagens da câmera interna do ônibus fossem
mostradas.
Nervosa e com medo, a vítima sentou-se próxima
a mim. Fomos conversando, e para minha tranquilidade, ela me confidenciou que desde
o início o único passageiro em que ela confiara tinha sido justamente eu.
A decisão de parar o ônibus na delegacia foi
mantida. Lá, o motorista orientou que ninguém descesse, somente a vítima. Assim
que tentei descer o motorista da Guanabara me barrou e eu disse que estava
saindo porque a vítima tinha pedido minha presença. Ela registrou a ocorrência, dois policiais entraram
no ônibus e fizeram questionamentos aos passageiros. Entretanto, a coisa não era simples, porque nenhuma evidência
concreta apontava para algum suspeito. Ironicamente,
o único elemento era que o celular tinha aparecido na minha poltrona, e, mesmo
assim, a vítima afastou qualquer suspeita sobre a mim.
Ela disse aos policiais que desconfiava do jovem da mochila. Então, um
policial entrou novamente no ônibus, informou que cada passageiro seria ouvido
individualmente e levou o suspeito indicado para uma sala reservada. Depois de
algum tempo, acredito que lá eles aplicaram
o que chamado de “técnicas avançadas de interrogatórios” e encontram os 50
reais rasgados dentro da cueca dele. Foi a prova suficiente para identificar o
ladrão do ônibus. Não tinha mais como esconder. Crime revelado. Pego com a oncinha
na cueca, ele declarou que estava vindo de uma estadia em casa de apoio a
dependentes químicos e estava voltando para o Maranhão. Ele acabou ficando
preso lá.
Com mais de três horas de atraso, finalmente seguimos
a viagem para São Luís. Fui conversando com a vítima, que era
advogada do setor jurídico da SEDUC, órgão ao qual eu também estava vinculado,
só que como professor. Trocamos os números de celular e assim que chegamos na
rodoviária de São Luís nos despedimos, mas eu fiz novamente um pedido: assim
que a Guanabara liberasse as filmagens, eu gostaria de vê-las para entender
como aquele ninja conseguiu colocar um celular ao meu lado, comigo acordado, sem
que eu percebesse. Isso era questão de honra para mim.
As imagens nunca apareceram.
De tudo isso fica a certeza de que na vida,
não controlamos as circunstâncias em que somos colocados, mas controlamos a
atitude que tomamos dentro delas e quem escolhe agir corretamente nunca perde.
ALIANDRO BORGES é professor,
químico, farmacêutico, jornalista e editor do Blog Correio Buritiense. Integra
a Academia Buritiense de Artes, Letras e Ciências (ABALC), da qual foi 1º
presidente (2019-2023), ocupando a Cadeira nº 13, patroneada por José Pereira
Borges. Atua na produção jornalística e na reflexão crítica sobre educação,
cultura, meio ambiente e políticas públicas. Todas as segundas-feiras publica
ensaios, crônicas e contos nesta coluna CONVERSAS SOLTAS, em que
articula memória, cotidiano e análise social.


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