O dia nos lares brasileiros geralmente começa pelo
café quentinho com pão, às vezes tem leite, o que garante a energia da manhã
até que venha a refeição do meio-dia. Assim sempre foi durante minha infância, ressalvando
que, em alguns dias, o meu era um pirão gostoso de café preto com farinha seca,
digam o que quiserem, mas era isso que me fazia aguentar firme até o almoço. Porém,
como desde os 10 anos de idade, passei a cuidar da minha bisavó Maria Rego, a
Dindinha, com seus 90 anos, algumas manhãs eram iniciadas não com tradicional
café, mas com chás cujos sabores variavam entre camomila e erva-cidreira, o
preferido da velinha.
Como toda criança que busca descobertas, desde as
mais simplórias e bobas, como “o que acontece se eu engolir semente de mamão?”, até algumas mais
capciosas, como “se Deus criou tudo,
quem criou Deus?”, fui atormentado
durante um certo tempo por um medo que não se explicava: Eu temia não crescer e
ficar anão tipo um amigo meu da Rua Cadeia.
Ocorre que certa vez, não lembro o ano e tão pouco quem ensinou, me
disseram que folha de eucalipto seria infalível para crescer. E lá se vai minha
saga de criança para achar a tal árvore e tomar o milagroso chá do crescimento.
Quem viveu nos anos 80, 90 e primeira metade dos anos 2000, sabe que dos poucos lugares da cidade, ou talvez o único, que podíamos encontrar o eucalipto era na área livre do nosso antigo Hospital Regional Smith Braz, razão social Fundação Médica Hospitalar Assistencial Ester Magaldi, um estabelecimento de saúde de referência com atendimentos de Urgência e Emergência, que prestava assistência médica a pessoas de várias cidades do Maranhão e até de outros estados.
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| Entrada do Hospital Smith Braz - Foto/Crédito: Armando Vilar |
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| Área livre do Hospital Smith Braz - Foto/Crédito: Armando Vilar |
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| Lateral do Hospital Smith Braz - Foto/Crédito: Armando Vilar |
Construído em 1975, no primeiro mandato do ex-prefeito Benedito Machado (1973-1977; 1983-1984), o Hospital Smith Braz funcionou de forma cabal até 2004, último ano do 3º mandato do ex-prefeito José Machado Vilar (1989-1992;1997-2000;2001-2004). De lá para cá, derrubaram tudo e hoje funciona no local uma inacabada Praça da Juventude. Lamentavelmente, egos políticos e brigas por poder resultaram na precariedade do que testemunhamos na saúde municipal, uma cidade sem estrutura hospitalar, apenas maquiagens eleitoreiras e promessas não cumpridas.
Voltando à saga, quão grande não foi minha alegria
quando lá cheguei, entrei e pedi licença ao vigia Alderico Abreu para pegar
as tais folhas. Isso virou rotina
matinalmente, ao ponto que, intrigado, Alderico me questiona qual serventia daquelas
folhas. Expliquei sobre meu medo e a receita que ensinaram. Ele abriu um sorriso e daí para frente eu tinha seu consentimento quando chegava
lá no Hospital.
Em casa, muito esperançoso, providenciava logo a
infusão da água quente com as folhas, adoçava um pouco, me benzia e tomava o chá do eucalipto. Isso se repetiu
por algum tempo, até que fui estudar meu
ensino médio, em São Luís, e lá, já crescido, a vida me impôs novos desafios
que não se resolviam com esse tipo de chá.
Curiosamente, na Biologia, estudei muito sobre
o Reino das Plantas e aprendi que o Eucalipto é uma angiosperma com origem em
outro continente e veio parar aqui no Brasil lá pela metade do século 19 e, em
Buriti-MA, como sabemos, há atualmente muitos plantios decorrentes da atividade
agrícola dos sojicultores.
Assim que terminei o ensino médio, fiz os cursos universitários
de Química e Farmácia, neste último uma disciplina chamou minha atenção: a Farmacognosia,
ramo do conhecimento farmacêutico dedicado aos estudos de fontes primárias naturais, como plantas
medicinais, voltados para descoberta e produção
de fármacos e medicamentos. Pois não é
que o tal eucalipto tem mesmo suas serventias medicamentosas comprovadas, além
da importância econômica?
Tempos depois, nas vindas recorrentes de férias sempre
que me encontrava com o senhor Alderico, já atendente de enfermagem, casado com
uma grande amiga e minha vizinha Josileide,
auxiliar e técnica de enfermagem, de longe ele já vinha para minha direção rindo demasiadamente e perguntava se o chá de eucalipto tinha funcionado. Caíamos os dois na gargalhada!
Ele faleceu em 2022, e deixou como fruto do casamento o filho Alderico Júnior, enfermeiro
cardiologista e estomaterapeuta. Não pude explicar que realmente eu cresci, não fiquei anão, no
entanto, não tinha a ver com o chá de eucalipto, pois seus efeitos eram nas vias respiratórios,
aliviando gripes, resfriados, tosse e dor de garganta.
Não sei quem inventou isso para mim, mas se a intenção era me fazer de besta, agradeço, porque a vida também ganha sentido quando a gente aprende a rir do que tentou nos diminuir e a crescer a partir do que não conseguiu nos destruir.
ALIANDRO BORGES é professor,
químico, farmacêutico, jornalista e editor do Blog Correio Buritiense. Integra
a Academia Buritiense de Artes, Letras e Ciências (ABALC), da qual foi 1º
presidente (2019-2023), ocupando a Cadeira nº 13, patroneada por José Pereira
Borges. Atua na produção jornalística e na reflexão crítica sobre educação,
cultura, meio ambiente e políticas públicas. Todas as segundas-feiras publica
ensaios, crônicas e contos nesta coluna CONVERSAS SOLTAS, em que
articula memória, cotidiano e análise social.


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Parabéns pelo excelente texto. Amei as frases finais.
ResponderExcluirA cada texto um novo espanto pela delicadeza presente na tessitura de uma narrativa autobiográfica entremeada pelo humor, valor histórico e noção clara de pertencimento. Qual será o próximo?
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