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Coluna SEXTA DE NARRATIVAS - ZÉ LOURA, UM CABOCLO DE VERVE

 

   Cantar e contar a minha Terra é fazer dos meus Cantos e Contos, Orações, Preces e homenagens aos meus conterrâneos e conterrâneas que inundaram o início do meu caminhar terreno com suas lições de sabedoria, de honradez, de um modo puro, natural e verdadeiro, premiando-me com ensinamentos valiosíssimos na minha infância, que permanecem comigo no entardecer da minha passagem nesta NAVE chamada Tempo ou Vida. É mostrar principalmente aos jovens, a riqueza cultural da nossa Gente e do nosso Torrão Sagrado. José Benedito Loura, o personagem central desta história real, nasceu no Povoado Cacimbas, viveu e labutô múntu, assim dizia ele, nos povoados Carranca, Espingarda, Bacaba e Laranjeiras, onde o conheci, todos na minha Buriti querida. Com ele aprendi filosofia, matemática, biologia, medicina, direito e sociologia, através de um linguajar simples, que se transformava em um doce aprendizado. Não sabia ler e nem escrever, mas adorava me ouvir ler para ele, puizíaz, vélsus, rumãncis de cordel, e partes da Bíblia Sagrada dos Cristãos. Era sábio, divertido, imaginação fértil, criativo e ágio na interlocução. De fino trato com todas as pessoas. Tinha uma dedicação especial por meu avô Pio Passos, com quem trabalhou por longo tempo, sendo, segundo ele, o seu Ajudante de Ordem, pois se referia sempre ao Capitão Pio, em decorrência dele ser de fato e de direito um Capitão do Exército brasileiro, patente comprada por muitos Contos de Réis, com diploma, farda e espadim, não obstante, válidos em todo o território nacional. Gostava de trabalhar para o cumpádi Jaime, meu Pai, que era o seu líder e segundo Ômi de Fé na linha familiar dos Passos. Trabalhava em todas as atividades agrícolas e tarefas ligadas a acompanhantes de viagens, normalmente envolvendo transporte de pessoas ou de produtos da lavoura em geral. O serviço, no entanto, que mais gostava era o do fabrico da famosa Tiquira, produzida com folha de tangerina por Papai em Laranjeiras, competidora com a tiquira fabricada no Povoado Barro Branco, também famosa. ZÉ Loura bebia muita tiquira e bebia bem, ficava alegre, engraçadíssimo, mais pacato ainda e conciliador no meio dos seus colegas de trabalho e de pinga. Era muito sério quando assumia o serviço da “lambicage”, como ele chamava. Passava noventa dias morando na casa do Alambique, trabalhando e em completa abstinência da tiquira. Sem beber a azulinha, mesmo tendo sempre a visita dos seus companheiros de farra que o tentavam, anda assim ele resistia. Completados os três meses de serviço, às cinco horas da tarde, Zé Loura avisava: cumpádi Jaime, seu Nêgo Véi tá de fóriga, arrume ôtu  Ômi pá ficar nu meu lugá! Assumia o novo titular e a festa começava para ele, às vezes três dias seguidos, transformado no romântico, no católico que se orgulhava em dizer que era o PÁDI de Cachía em alusão ao Bispo da Diocese de Caxias, que conhecera em uma viagem na qual servira de “ajudânti de orde” do meu avô e se hospedaram na casa do Sin-ô Bíspu. Duas afirmações eram inseparáveis de ZÉ Loura, esta de ser o Padre de Caxias e a de ser do tempo da Guerra do Paraguai. Quando alguém o contestava, sempre se contrapunha dizendo, “tu num tisquece, queu sô du têmpu da guérra du Paraguái”. Se no meio da conversa alguém dissesse que alguma coisa era possível, ele logo retrucava, “num diga pussívi, pruquê pussívi é un-a côiza impussívi, diga tôdu témpu, é Capáiz, quí aí áz côiza acontécim”.

Uma vez, ele se juntou com o meu irmão Adail, o mais velho dos meus irmãos, que estava de férias e com o senhor Clemente, um lavrador da sua turma, propôs um pacto, nos seguintes termos: Quelemente, nóz râmus cum u cumpádi Adail cumê um-a leitôa na casa da cumade Telina. U cumpádi Adail é u Sin-ô (Jesus Cristo), êu sô u Júan-u (João Batista) i tú é o Pêdu (São Pedro). Tu tem coidado pá nun sí metê a bexta cun u Sin-ô! Adail pegou dois litros de tiquira da pipa, duas carteiras de cigarros Continental, uma caixa de fósforos, dois pedaços de fumo Arapiraca, um para Zé Loura e outro para seu Clemente e rumaram para o almoço na casa da dona Otelina, amiga de todos da região, muito bonita, a anfitriã, que também era boa na pinga. Começaram a beber, a conversar e a cantar alegremente. Seu Clemente já mais alto do que o Sete Estrelas, começou a ser polêmico em tudo, o que Adail, aliás o Sin-ô, dizia e este discordava e o corrigia, enquanto Zé Loura, o João alertava o seu Clemente, o Pedro. Óia Pêduu, rezpêita o Sin-ô, tiáçucéga!

Após muita tiquira, muita conversa e muita cantiga, o Sin-ô perdeu a calma e deu um Tapa no Pédu, que caiu embaixo da mesa e Zé Loura, o João, passou a julgar a causa, pedindo para encerrar o entrevero: Êu tidixee Pédu, tú num pódi cum o Sin-ô, ele tem Pudê, ele é ú Sin- ô i agora Tú tem di tiarrependê i vâmu ficá a mêrma famía di amígus quí sêmpi fúmu! Conciliação conseguida, tomaram água do pote de barro mais frio da amiga Telina e foi desfeito o apostolado Santo naquele momento, no entanto a associação tiquiral, continuou com vínculos mantidos. Depois desse episódio, Zé Loura prosseguiu a sua caminhada sábia e pacifista, alegrando a todas as comunidades a que pertencia e era muito querido e respeitado por todos. Chegou o período das Santas Missões da Igreja Católica em Buriti e Zé Loura pediu a meu Pai que comprasse um corte de brim coringa para fazer um lifórmi pra ele, a fim de que pudesse participar bem apresentado, na missa final do movimento missionário da nossa terra.  Foi atendido e o cumpádi Jaime pagou o feitio do seu uniforme. No dia da missa final, ele preparou o seu burro de cela e seguiu para a Cidade objetivando cumprir o seu compromisso religioso, com muita FÉ na mente, na alma e no coração. Chegou cedo à igreja depois de ter deixado o seu burro no quintal da casa do meu avô, o Capitão Pio. Conseguiu um dos lugares da oitava fila de bancos na sequência frente do altar de Sant'Ana com direção à porta central da Matriz. Excelente posição pra ver o Sin-ô Bispu bem de perto. Missa realizada, fila formada pelos fiéis para beijarem o Anel do Reverendíssimo Senhor Bispo Diocesano. Zé Loura era um deles e alcançou a graça de ter feito parte dos eleitos, brijou com todo o respeito e reverência, o Anel do Bispo. Muito feliz, foi buscar o seu burro para a viagem de volta a Laranjeiras. Ao passar na rua Coronel Lago, foi surpreendido pelo forte grito de um Coronel, também de patente comprada, tentando humilhar o nosso sábio Caboclo Zé Loura: cheirou o Cu do Bispo, Caboclo? Ele, com toda paciência, tirou o chapéu de massa da sua cabeça e fazendo um aceno respeitoso ao seu pretenso algoz respondendo, Nhôr nã-u Coronéé, eu só beijêêéie o Anel, o Cu é só mêrmu pá Vóiz Mincê  quí é Rícuuu, botou novamente o chapéu na cabeça e seguiu cantarolando o hino sacro,  êu cúnfíu in nossu Sin- ô, cún fé isperânça i Amôô até chegar na  sua humilde e honrada CASA. O Coronel não teve um dia Alegre e nem Feliz.

Zé Loura, faleceu aos oitenta e três anos bem vividos, cercado de amigos e amigas de toda a região onde morou, foi útil e deixou ensinamentos, bondade e muita SAUDADE.









SOBRE O AUTOR

É buritiense, ardoroso amante da sua terra, deu seus primeiros passos no velho Grupo Escolar Antônia Faria, cursou o Ginásio Industrial na Escola Técnica Federal do Maranhão e Científico no Liceu piauiense e no Liceu maranhense, bacharelou-se em Direito pela Faculdade de Direito/UFMA, é advogado inscrito na OAB/MA, ativo, Pós-graduado em Direito Civil, Direito Penal e Curso de Formação de Magistrado pela Escola de Magistrados do Maranhão, Delegado de Polícia Civil, Classe Especial, aposentado, exerceu todos os cargos de comando da Secretaria de Segurança Pública do Maranhão, incluindo o de Secretário. Detesta injustiça de qualquer natureza, principalmente contra os pobres e oprimidos, com trabalho realizado em favor destes, inclusive na Comarca de Buriti.

Comentários

  1. Amigo Djalma, uma sugestão: suas narrativas são maravilhosas, mas tente construir o texto com parágrafos menores. O período muito longo torna a leitura cansativa. Espero ter contribuído. Um abraço.

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